Existe um senso comum de que fazer um intercâmbio não é simples. Quando falamos de um intercâmbio de longa duração ou de uma mudança definitiva para outro país, essa experiência se torna ainda mais complexa. Dinheiro e estabilidade ajudam, mas não eliminam a solidão, a dificuldade com o idioma, os choques culturais e a insegurança de reconstruir a vida longe do Brasil.
O dinheiro ajuda, mas não elimina os desafios
Quando você sai de um país que utiliza o real e passa a viver em um lugar onde tudo é pago em euro, a diferença da moeda já cria uma barreira importante.
Mesmo quem possui suporte financeiro da família, recebe aluguel no Brasil ou tem alguma outra fonte de renda precisa aprender a pensar em uma nova moeda.
Uma compra que parece pequena em euros pode representar um valor considerável depois da conversão. Ao mesmo tempo, você começa a ganhar, gastar e organizar a vida com base na realidade local.
Porém, o dinheiro não resolve tudo.
Ele pode proporcionar uma moradia melhor, reduzir a urgência de encontrar trabalho e permitir alguns momentos de lazer. Ainda assim, não elimina a solidão, a dificuldade com o idioma, o medo relacionado à documentação ou os choques culturais do cotidiano.
Esses desafios aparecem para quase todos, ainda que de maneiras e intensidades diferentes.
Adaptar-se a um novo país pode ser uma das partes mais difíceis
Malta possui muitos imigrantes e uma comunidade brasileira muito grande.
Isso ajuda bastante. Você encontra pessoas que falam português, produtos brasileiros, festas, grupos e outros espaços que trazem alguma sensação de familiaridade.
Mesmo assim, continuamos não pertencendo completamente a este lugar. Isso é um fato que talvez nunca mude.
O calor é diferente. O frio é diferente. O caminho para o trabalho é diferente. A forma de estudar, resolver documentos, fazer compras e se relacionar com as pessoas também muda.
Você é bombardeado diariamente por diferentes culturas e por pequenas práticas que podem ser difíceis para um brasileiro compreender.
Não significa que uma cultura seja necessariamente melhor ou pior do que outra. Significa que cada pessoa chega com uma referência diferente daquilo que considera educação, respeito, cuidado e convivência.
Até um ônibus lotado funciona de outra maneira
Um exemplo aparentemente pequeno é o transporte público.
Um ônibus lotado em Malta não funciona exatamente como um ônibus lotado no Brasil.
Aqui, muitas pessoas possuem o hábito de permanecer na parte da frente ou no meio do corredor. Em diversas situações, o ônibus parece completamente cheio, mas ainda existe espaço no fundo.
Isso pode fazer com que o motorista não permita a entrada de mais passageiros, mesmo quando parte do veículo continua vazia.
Em algumas situações, vale perguntar ao motorista se você pode validar o cartão e entrar pela porta traseira. Quando ele autoriza, isso pode facilitar bastante. Não é uma garantia nem uma regra para todos os ônibus, mas é algo que já vi acontecer na prática.
Pode parecer um detalhe insignificante. Porém, quando você depende daquele ônibus para trabalhar, estudar ou chegar a um compromisso, esse tipo de diferença começa a fazer parte do desgaste diário.
A convivência multicultural exige paciência
Na minha experiência, algumas diferenças de convivência foram mais difíceis do que eu imaginava.
Nós, brasileiros, também temos inúmeros problemas. Mesmo assim, carregamos determinados padrões de educação e cuidado com as outras pessoas que nem sempre aparecem da mesma forma em outras culturas.
Você pode conviver com pessoas que possuem hábitos de higiene diferentes, falam muito alto, fazem barulho enquanto comem ou não demonstram a mesma preocupação com o espaço compartilhado.
Também pode encontrar colegas de classe, trabalho ou apartamento que tossem e espirram sem colocar a mão na frente, assoam o nariz durante uma refeição ou fazem coisas que seriam consideradas muito desconfortáveis em diversos ambientes no Brasil.
Nem todas as pessoas são assim e isso não representa uma nacionalidade inteira. São situações que encontrei durante a convivência com pessoas de diferentes países.
O ponto é que, quando você faz um intercâmbio, não escolhe apenas aprender um novo idioma. Você também precisa aprender a conviver com costumes que podem incomodar, surpreender ou desafiar aquilo que sempre considerou normal.
A forma de se comunicar também muda
No Brasil, muitas vezes pensamos bastante sobre como falar algo sem ofender ou constranger outra pessoa.
Em Malta, você pode encontrar ambientes em que as pessoas falam de maneira muito mais direta.
Às vezes, essa comunicação pode parecer rude. A pessoa fala o que pensa, da forma como pensa, sem demonstrar muita preocupação com o impacto daquelas palavras.
Isso não significa necessariamente que ela tenha a intenção de ofender. Pode ser apenas uma diferença cultural na maneira de se comunicar.
Mesmo assim, é preciso aprender a lidar com isso.
Você precisará entender quando algo foi realmente desrespeitoso e quando a pessoa apenas possui uma referência diferente de comunicação.
A diferença profissional também pode causar frustração
Uma das coisas que ainda estou aprendendo a enfrentar é a diferença de perfil profissional.
Essa percepção parte da minha experiência e dos lugares em que trabalhei no Brasil. Eu estava acostumado com ambientes que valorizavam performance, entrega, proatividade, conferência e atenção aos detalhes.
Em Malta, encontrei profissionais e ambientes com outra relação com o trabalho.
Não significa que não existam profissionais excelentes na ilha. Existem.
Porém, na minha experiência, qualidades como proatividade, double check, curadoria e cuidado com as entregas nem sempre aparecem com a frequência que eu esperava.
Isso pode trazer muita frustração para quem chega com vontade de crescer, mostrar serviço e entregar um trabalho com alto padrão de qualidade.
Você também pode precisar lidar com adultos disfuncionais profissionalmente, que possuem salários iguais ou maiores que o seu, mesmo demonstrando menos preocupação com o trabalho.
Confesso que ainda estou aprendendo a lidar com essa diferença.
Existe um lado positivo. Se você chega com sangue nos olhos, responsabilidade e vontade de fazer acontecer, destacar-se pode não ser tão difícil.
O desafio maior talvez seja não permitir que a falta de cuidado das outras pessoas diminua o seu próprio padrão.
Sem inglês, sua qualidade profissional pode demorar para ser reconhecida
Quando cheguei a Malta, eu não falava inglês.
Ainda hoje não considero meu inglês perfeito.
Isso cria uma barreira profissional muito grande. Você pode ter experiência, conhecimento e qualidade no seu trabalho, mas não conseguirá demonstrar tudo isso imediatamente se não consegue se comunicar.
Talvez você não receba o melhor salário ou a melhor oportunidade de emprego logo no começo.
Isso não significa que você não seja um bom profissional. Significa apenas que, naquele momento, o idioma limita sua capacidade de apresentar tudo o que sabe fazer.
Não se desanime.
Encare esse período como parte do aprendizado e como algo momentâneo. Continue estudando, praticando e procurando oportunidades melhores.
A dor do crescimento também faz parte da mudança.
Qualquer mudança custa dinheiro
Outra dificuldade importante é que praticamente todas as mudanças possuem algum custo.
Mudar de casa pode exigir depósito, pagamento antecipado e taxas de agência. Dependendo da sua situação, mudar de emprego também pode envolver custos relacionados à documentação e ao processo de residência.
O dinheiro é suado, principalmente no começo.
Por isso, você precisa estar preparado para ganhar pouco e abrir mão de algumas coisas antes de conseguir relaxar e aproveitar melhor a vida na Europa.
Isso pode significar sair menos, viajar menos, dividir quarto, morar longe das regiões mais desejadas ou aceitar um trabalho que ainda não representa o seu objetivo profissional.
Você não precisa permanecer nessa realidade para sempre. Porém, talvez precise atravessá-la durante um período.
Não conhecer seus direitos e deveres também possui um custo
Mudar para outro país significa entrar em um sistema que você ainda não conhece.
Você não sabe completamente quais são os seus direitos e deveres como imigrante. Também não conhece todos os processos, prazos e consequências relacionados à documentação.
Essa falta de informação possui um custo financeiro, mas também afeta o seu tempo e sua saúde mental.
Os períodos de espera por documentos podem ser tensos e angustiantes.
Você começa a imaginar tudo o que pode dar errado. Em momentos de desespero, pode acabar aceitando propostas ruins ou permanecer em trabalhos que não fazem mais sentido apenas por medo de comprometer sua documentação.
Esse sentimento de vulnerabilidade é uma das partes mais difíceis da adaptação.
Existe a sensação de que, se algo sair do trilho por alguns segundos, tudo pode dar errado.
Com o tempo, esse medo tende a diminuir. Você começa a entender melhor os processos, conhece outras pessoas na mesma situação e aprende onde buscar informações.
Mesmo assim, dificilmente será igual à segurança de estar no seu próprio país.
Construir um ambiente seguro leva tempo
Também pode ser difícil criar amizades, proximidade e relacionamentos.
Você naturalmente se aproxima de pessoas que estão vivendo situações parecidas. O sentimento de proximidade e afeto pode crescer muito rápido porque todos estão distantes de casa e procurando algum tipo de apoio.
Essas conexões podem ser intensas, mas também passageiras.
Muitas pessoas estão em Malta apenas por alguns meses. Você conhece alguém, cria uma rotina, compartilha experiências e, de repente, aquela pessoa volta para o país dela ou segue outro caminho.
É possível conhecer muita gente legal, mas criar raízes exige tempo.
Também vale lembrar que o brasileiro gosta de uma fofoca. Em Malta não é diferente. Então fique esperto ou esperta, porque a comunidade brasileira pode ser grande e pequena ao mesmo tempo.
O intercâmbio pode ser uma experiência muito solitária
Mesmo cercado por pessoas, existem partes da experiência que serão apenas suas.
Você terá medos que talvez sua família no Brasil não consiga compreender completamente. Precisará tomar decisões sem ter certeza de que está fazendo a coisa certa.
Também enfrentará problemas em outro idioma e momentos nos quais sentirá falta de ter uma base segura por perto.
É nesse ponto que as amizades, os colegas de casa e as pessoas que conhecemos durante o caminho podem fazer muita diferença.
Você não precisa enfrentar tudo sozinho.
Ao mesmo tempo, precisa aprender a ficar bem consigo mesmo, porque nem todas as pessoas permanecerão ao seu lado durante toda a experiência.
Desistir não é demérito
Muitas pessoas desistem no caminho.
Isso não é demérito.
Cada pessoa possui seus motivos, seus limites e seus próprios ciclos. Algumas planejaram permanecer apenas seis meses ou um ano e simplesmente concluíram aquilo que pretendiam viver.
Outras realmente tentaram ficar, mas não conseguiram encontrar trabalho, manter os custos ou lidar com todos os desafios emocionais e burocráticos.
Também existem pessoas que percebem que aquela vida não corresponde ao que desejavam.
Voltar para o Brasil não significa fracassar.
Continuar em Malta também não significa automaticamente vencer.
O mais importante é entender o que faz sentido para sua vida e reconhecer quando uma decisão está sendo tomada por vontade ou apenas por medo.
Agora eu entendo por que as empresas valorizam um intercâmbio
Quando eu era mais novo, nunca entendi completamente por que algumas empresas valorizavam tanto candidatos que haviam feito um intercâmbio de seis meses ou um ano.
Hoje eu entendo.
Durante esses cinco meses em Malta, tive muitos dias bons e muitos dias ruins.
Sobreviver aos dias ruins torna você mais forte.
Você cresce como pessoa, aprende mais sobre seus objetivos e começa a entender aquilo que realmente é capaz de fazer.
Também descobre o tamanho da sua vontade de permanecer aqui.
Cada dia fora do Brasil que você vence e vive mostra que existe uma vida possível em outro país. Isso se transforma em um combustível incrível.
Você amadurece e começa a perceber o que realmente é um problema, o que estava apenas na sua cabeça e aquilo de que realmente precisa para viver bem.
Morar fora é como correr uma maratona
Para mim, essa experiência se parece muito com uma maratona.
Quando vejo corredores completando 42 quilômetros e chorando na linha de chegada, consigo entender um pouco do que eles estão sentindo.
No começo, você corre por você.
Os primeiros quilômetros são sustentados pelo preparo, pela animação e pelo desejo de começar.
Depois dos 20 ou 30 quilômetros, a experiência deixa de depender apenas do preparo físico. Ela passa a ser mental e motivacional.
A dor aparece.
É nesse momento que você precisa buscar os motivos que fizeram você começar.
Um amigo me contou que dedicou cada um dos quilômetros finais de uma maratona a uma pessoa importante. Um quilômetro para a mãe, outro para o pai, outro para os amigos.
Talvez essa também seja uma boa estratégia para viver e vencer os dias difíceis de um intercâmbio.
Lembrar dos seus sonhos. Lembrar dos seus objetivos. Lembrar de quem torce por você e de tudo o que precisou fazer para chegar até ali.
No final, permanecer ou voltar não é a única medida de sucesso.
Concluir o período que você escolheu viver e voltar para casa com a sua própria conquista, seja ela qual for, também é uma vitória.
Vale a pena morar em Malta?
Apesar de todos esses desafios, morar em Malta pode ser uma experiência inesquecível.
Você aprende inglês, conhece pessoas de diferentes partes do mundo, desenvolve independência e descobre capacidades que talvez nunca precisasse utilizar no Brasil.
Porém, é importante chegar com expectativas reais.
Malta não resolverá automaticamente seus problemas. A Europa não transformará todos os dias em férias. Existirão momentos de cansaço, frustração, solidão e dúvida.
Também existirão conquistas, amizades, descobertas e momentos nos quais você perceberá o quanto cresceu.
O desafio não elimina o valor da experiência.
Talvez seja justamente o desafio que faça essa experiência valer tanto.
Planejando morar em Malta?
Cada pessoa chega a Malta com uma condição financeira, um objetivo e um prazo diferente.
Este artigo apresenta a minha experiência pessoal durante os primeiros cinco meses na ilha. A sua trajetória pode ser mais fácil, mais difícil ou simplesmente diferente.
O Malta na Prática oferece uma conversa individual para ajudar você a organizar expectativas, compreender os principais desafios e pensar em Malta de acordo com seu momento e seus objetivos.
A informação geral está neste artigo. A conversa serve para aplicar essa realidade à sua situação.
Este artigo apresenta uma experiência pessoal. Comportamentos, ambientes profissionais, custos e processos de adaptação variam conforme as pessoas, o momento e a situação migratória de cada leitor.

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